O presente é um animal que habita o meu estômago

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O presente é um animal que habita o meu estômago

I.

- Que procuras?

- Deus.

- O encontraste?

- Algumas vezes. Não hoje. Não recentemente. Nunca quando o procurava.

- Onde o encontraste?

- Na calma e no desespero.

- Então está em todas as coisas?

- Não, apenas nos extremos.

II.

“Onde está Deus?”, pergunta-se. Mas para encontrá-lo é preciso conciliar-se com o tempo, recusar a aritmética, celebrar o absurdo. “Onde está Deus?” Mas não há resposta definitiva. Deus não tem passado ou futuro; tem presente, infinitamente. Por isso se deve perguntar, repetidamente perguntar: onde está Deus agora?

III.

- Deus é eterno?

- Deus é.

- E que forma tem?

- Todas.

- Como o universo?

- Não, como o abismo.

- Então, finalmente, procuras o nada.

- Sim, e também seu oposto.

IV.

Para que se encontre respostas precisa-se, antes, encontrar perguntas. Algumas são retóricas. Outras, absurdas - procuras o nada? Outras, ainda, fazem sentido apenas em verbo - qual é a forma de Deus? A que se pode responder: Deus tem a forma do abismo ou de um oceano ao avesso - alcança-se, com sorte, a beleza, mas não o alívio. Há perguntas inúteis - o que é o tempo? ou de que é feita a vida? Não importa, desde que se movam. E, ainda, há as perguntas impossíveis - quem és? ou o que procuras?

Para cada pergunta impossível existe uma infinidade de respostas possíveis. Nenhuma delas jamais será definitiva e, por serem todas certas, são todas insuficientes. É nisso, justamente, que reside a impossibilidade dessas perguntas. E também seu desafio.

Sim, o desafio: responder a cada dia, a cada instante, até, às mesmas perguntas. Quem sou e o que busco? Quem sou e o que busco? Quem sou e o que busco? Até que se perceba: busco o que sou e sou minha busca. Essa percepção não é, de maneira nenhuma, uma resposta. É simplesmente a constatação de que há apenas uma pergunta relevante. Uma pergunta que pode ser colocada de, pelo menos, três formas: quem sou?, que busco? e onde está Deus agora?

V.

- Sua busca é vã e absurda.

- Sim, mas a que outra coisa se pode dedicar a vida?

VI.

Há homens que entregam suas horas a tarefas úteis. Limpar o chão, por exemplo. Há homens que vivem para limpar o chão. É, quando se pensa com cuidado, uma tarefa impossível. O tempo suja o chão que os homens insistem em limpar, outra e outra vez. O tempo é eterno, os homens não. Mas não se deve confundir impossibilidade com fracasso - e para isso é necessária certa generosidade. Os homens não fracassam nem o tempo triunfa. Não é uma disputa, é apenas uma lição: porque somos mortais existe o impossível. E porque existe movimento existe repetição.

VII.

- Repetição criativa, pode-se dizer - até a natureza busca se divertir, hás visto pores-do-sol e tsunamis? - mas, ainda assim, repetição. Cada vida é singular e, até nisso, igual a todas as outras. Há apenas uma grande tragédia a se desenrolar eternamente e o gozo é sempre o mesmo: um só gozo a ser redistribuído entre os homens.

VIII.

O universo se repete dividindo nossa existência em unidades mensuráveis de tempo: vivemos em dias, anos, milênios e segundos. Milésimos de segundo, ainda. E é justamente nos extremos que se deve prestar atenção: a maior porção do tempo é a eternidade. Sua unidade indivisível, o presente. Quando se pensa, outra vez, com cuidado, se nota que o presente e a eternidade são a mesma coisa. Essas - e apenas essas - são as formas do tempo que de fato existem. O resto é aritmética.

Os homens que desempenham tarefas úteis e impossíveis acordam de manhã e dormem à noite. Entre uma coisa e outra trabalham, amam e por uma hora interrompem o amor e o trabalho para o almoço. Esses homens são feitos de corpos, por isso comem. São feitos de almas e por isso amam. Se trabalham é porque acreditam nas contas e no fim do mês. Na aritmética, portanto. E a aritmética é fácil de provar: basta notar que o Sol renasce a cada 24 horas e que o outono ocupa sempre os mesmos meses do ano. Difícil é provar a eternidade e, por conseqüência, o presente.

IX.

- Tuas palavras não fazem sentido. Como podem, eternidade e presente, ser a mesma coisa?

- É bastante simples e até óbvio. Basta entender que não é a eternidade que contém a soma de todos os presentes, mas o presente que contém a eternidade. Se temos consciência do passado é graças à memória e aos escombros. Mais: tudo o que vemos é a reinterpretação do que já vimos. E futuro não há senão quando se faz presente - ele também, então, será mais uma versão do passado.

- Tua lógica é limitada. A eternidade não é apenas a vida de um homem e nem mesmo da humanidade, mas também o que não sobreviveu em forma de escombros ou de memória. Contém o esquecimento e futuros potenciais. Está além da consciência humana. Além, até, da soma de todas as almas.

X.

Além do amor, do trabalho e do horário de almoço vai a vida. A utilidade é insuficiente para preencher um dia, mas a banalidade não basta para completá-lo. A existência humana é repleta de tarefas inumanas: conciliar-se com o tempo - dividi-lo em horas e minutos não é mais que uma vã tentativa de domá-lo - e procurar por Deus.

Acordar todas as manhãs parece natural, mas é um ato quase bárbaro. Enfrentar a vida: um dia depois do outro e uma noite entre eles, de novo e de novo. Não é fácil estar no mundo e por isso dormimos: para que nossa existência seja tolerável, para que voltemos ao campo de batalha descansados. Para que possamos sonhar, até que toque o despertador.

Muito se fala em prazer, mas pouco ou nada se sabe sobre isso. Que prazer sente, por exemplo, o homem que dedica a vida a limpar o chão? Esse homem faz amor e come. São atividades prazerosas, alguém dirá. Mas há que se ter cuidado para não confundir prazer e satisfação. O amor que esse homem faz ou a refeição que saboreia com sorte o deixarão satisfeito. O prazer, porém, está sempre do outro lado do abismo.

Mesmo os que não dominam as regras da aritmética certamente já notaram que o sol se põe à noite e volta a nascer de madrugada. Eis o perigo: a certeza do amanhã. Perigo, sim, pois a consciência de que o futuro é inevitável é também a consciência do desdobramento lógico das nossas ações em consequências. E é por isso que se teme o abismo.

XI.

- E o que é o abismo?

- É a coragem de enfrentá-lo. É o presente, apenas isso e infinitamente.

- O presente não existe. Apenas o passado, outra e outra vez. Existe a memória e existe o movimento. À soma chamamos de presente.

- Sim. Mas há também o estômago e dentro dele um animal. O presente é um animal que habita o meu estômago.

Luiza Fagá, 2013

O presente é um animal que habita o meu estômago é um projeto de investigação artística sobre modos de transcriar a literatura para o meio audiovisual. Foi desenvolvido por Luiza Fagá.

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